ENEM deverá ser em novembro - Confira Correio Popular em 02/10/09

Publicada em 2/10/2009

Cidades
Prova do Enem fica para novembro

Após cancelamento por suspeita de fraude, expectativa é de que seja aplicada nos dias 7 e 8

De Brasília

A prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que aconteceria neste fim de semana, foi remarcada para a primeira quinzena de novembro. O exame foi cancelado na madrugada de ontem depois que a reportagem do jornal O Estado de S.Paulo alertou o Ministério da Educação (MEC) para o vazamento das provas já impressas, e os técnicos do Instituto Nacional de Pesquisas e Estudos Educacionais (Inep) comprovaram que havia mesmo quebra de sigilo.

A pedido do ministro da Educação, Fernando Haddad, que conversou com o colega da Justiça, Tarso Genro, a Polícia Federal (PF) abriu uma investigação para saber quem são os responsáveis pelo vazamento das provas e onde foi que, ao longo de todo o processo de confecção das perguntas do exame, de produção gráfica, impressão e logística de distribuição, aconteceu a violação do sigilo.

Haddad ordenou ao Inep “prioridade máxima” à preparação da nova prova. A meta é tentar antecipar ao máximo a realização do exame e, segundo um assessor do ministro, “realizar a prova nos dias 7 e 8 de novembro”, logo depois do feriado de Finados, no dia 2 de novembro. Desse jeito, o MEC tenta garantir que o Enem seja usado como exame seletivo para ingresso nas universidades.

Em sua 12ª edição, a prova do Enem deste ano terá um novo formato. Agora, ela vai funcionar como vestibular unificado nacional — 24 universidades federais aboliram os processos seletivos para adotar o exame, que será feito em 1.828 municípios. O maior número de candidatos está concentrado em São Paulo, onde estão inscritos 234.173 estudantes.

O vazamento

O Estado foi procurado na tarde de quarta-feira por um homem que, pelo telefone, disse ter cópias das duas provas do Enem que seriam aplicadas neste fim de semana. O homem propôs vender a prova por R$ 500 mil — o jornal rejeitou a proposta, mas, depois de um encontro, que aconteceu na zona Oeste de São Paulo, viu trechos suficientes do exame para, em contato com o MEC, poder confirmar a autenticidade do documento.

No exame a que a equipe de reportagem teve acesso, a prova de linguagens e códigos, que seria aplicada no domingo, tinha na primeira questão uma tira da personagem de história em quadrinhos Mafalda. Outros conteúdos identificados foram: uma bandeira do Brasil com a área verde parcialmente suprimida, simbolizando o desmatamento; o poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias; o trecho de um verso de Carlos Drummond de Andrade (“No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho”); um texto da revista Veja sobre o filme Touro Indomável, de Martin Scorsese; e a imagem do gato Garfield.

O presidente do Inep, Reynaldo Fernandes, disse que a nova versão da prova deverá ser envolvida por um sistema de segurança mais rígido do que a prova cancelada. “Não há como esperarmos o fim das investigações para iniciar preparativos para novo exame. Temos que fazer a prova e vamos colocar todos os elementos de segurança disponíveis em alerta máximo”, disse.

O Inep dispõe de um banco com cerca de 2 mil questões que podem ser usadas em novas versões da prova. Mas, mesmo com esse banco, é preciso um tempo para a seleção, montagem e impressão da nova versão de prova. Haddad estima que, mesmo com um mês de atraso na realização do Enem, será possível divulgar os resultados em uma data bem próxima da que havia sido estabelecida antes do vazamento.

O ministro afirmou que o Inep deverá fazer uma avaliação preliminar para identificar as lacunas de segurança. Para ele, tal medida pode afastar eventuais questionamentos sobre a inviolabilidade da versão da prova que agora começa a ser preparada. Haddad lembrou que procedimentos semelhantes são adotados em casos de concursos cancelados por vazamento de informações.

Ainda não está definido quem vai arcar com os custos da nova impressão, estimados em R$ 30 milhões. O assunto agora está sendo analisado pela assessoria jurídica do ministério. Ontem à noite, o MEC divulgou as provas dos dois dias e os gabaritos. (Da Agência Estado)

Fuvest e Unicamp vão avaliar se pontuação será considerada

A Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest), que organiza o vestibular Unicamp, informou por meio de nota oficial que só usará a pontuação do Enem no vestibular 2010 se estiver disponibilizada até 30 de novembro. Caso contrário, a nota será descartada. O peso do Enem no vestibular da Unicamp é de 20% na nota da primeira fase. A Fuvest, responsável pelo vestibular da USP, também pretende avaliar se o resultado da prova do Enem será considerada e usada no processo seletivo que visa preencher vagas para os cursos que são oferecidos pela instituição em 2010. Por meio de nota, a reitoria da USP informou que, por causa do adiamento do Enem, a pró-reitoria de graduação e a Fuvest vão entrar em contato com o Inep para verificar a possibilidade de compatibilizar os calendários e avaliar se a nota do Enem será viável no vestibular 2010. Segundo a USP, os candidatos vão ser informados antecipadamente caso ocorra alguma alteração. A nota obtida no Enem pode ser usada na primeira fase da Fuvest e pode também valer um bônus de 6% para o candidato que cursou todo o Ensino Médio em escolas públicas do Brasil. A Fundação Vunesp, que organiza o vestibular da Universidade Estadual Paulista (Unesp), informou, por meio de nota, que vai aguardar pela definição da nova data da prova do Enem para se manifestar sobre possíveis mudanças no calendário do vestibular. Segundo a Vunesp, os candidatos a vagas nos cursos oferecidos pela Unesp serão informados com antecedência caso haja mudança. (Agência Brasil)

Decisão causa alvoroço em Campinas

Estudantes estão cheios de dúvidas; na cidade há cerca de 26 mil inscritos

O cancelamento do Enem abalou os estudantes e causou alvoroço nas escolas e cursinhos. Em Campinas, há cerca de 26 mil inscritos. Na região metropolitana, são 66 mil no total. Todos estão cheios de dúvidas.

A maior preocupação de alunos e professores do Colégio Progresso é que o adiamento vai gerar “congestionamento” de vestibulares, porque o prazo de 45 dias previsto para aplicação fica próximo das primeiras fases das provas da Universidade de São Paulo (USP), aplicada pela Fuvest, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Os alunos estavam se preparando física e psicologicamente para a maratona de provas”, disse Cristina Tempesta, coordenadora do Ensino Médio e diretora pedagógica do Colégio Progresso.

No Colégio Rio Branco, o calendário também é a principal preocupação. “Já tínhamos refeito tudo por causa da gripe A. Agora, teremos de fazer um novo planejamento”, afirmou o professor de história e sociologia Gustavo Ricciardi. Mesmo assim, os educadores fazem questão de afirmar que o Enem não perde a credibilidade. “Quero confiar que desta vez será corretamente distribuída (a prova)”, disse Ricciardi.

Para o coordenador pedagógico do pré-vestibular da Oficina do Estudante, Célio Ricardo Tasinafo, é bem provável que a nova data do Enem caia no mesmo final de semana que algum vestibular de faculdade particular. “Os alunos estão preocupados e ansiosos. Dissemos a eles que continuem a preparação para os vestibulares que vão prestar e que não percam o foco”, disse Tasinafo. A diretora pedagógica do Anglo, Alice Campo Dall’Orto, disse não se lembrar de caso parecido. “Nunca aconteceu. Estamos apostando no atendimento psicológico dos alunos. Explicamos que eles têm de ter jogo de cintura e continuar estudando”, afirmou Alice.

O estudante Felipe da Costa Mello, de 19 anos, que vai prestar jornalismo na USP e na Unesp, está indignado. “Você se prepara. Deixa tudo preparado e a prova é cancelado por causa de um fato lamentável como esse”, disse. Para Bruno Buso Adani, de 17 anos, que faz o terceiro ano do Ensino Médio no Colégio Rio Branco e participou de quatro simulados do Enem, a notícia do cancelamento é difícil de aceitar. “Estava me sentindo preparado para fazer a prova neste final de semana”, afirmou. Esse é o mesmo sentimento de Bárbara Souza Costa, de 17 anos, que vai prestar Direito. “Estou cheia de dúvidas. Como vai ser? Os vestibulares começam daqui a duas semanas”, disse. (Fernanda Nogueira de Souza/Da Agência Anhanguera)

PF fará rastreamento em cada etapa do processo

Imagens de vídeo podem ajudar a identificar primeiras pistas no Inep

A primeira hipótese a ser investigada pela Polícia Federal (PF) com base nos elementos preliminares levantados pelo MEC é que o vazamento tenha ocorrido entre a etapa de impressão das provas, na gráfica Plural, em São Paulo, e a distribuição dos kits por todo o País. A PF não descarta nenhuma pista e vai começar a investigação pelo rastreamento de cada etapa do Enem, desde a confecção das provas, o que inclui tomar depoimento de servidores em Brasília ligados ao programa, até a distribuição dos exames, aplicados em mais de 10 mil pontos espalhados por 1.828 municípios.

Segundo o ministro da Educação, Fernando Haddad, os primeiros elementos de prova podem estar nas fitas de vídeo que monitoram 24 horas tanto a gráfica, em São Paulo, como a sala de segurança do Inep, em Brasília, onde está guardado o material digitalizado com os exames do Enem.

O diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa, disse ontem ao ministro Fernando Haddad que o superintendente da PF em São Paulo, Leandro Coimbra, vai indicar o delegado responsável pelo inquérito o mais rápido possível. Mas já está definido que a investigação ficará a cargo da Polícia Fazendária.

Ao todo, existem 40 funcionários da Diretoria de Logística do Enem, vinculados ao Inep, que em tese tiveram algum tipo de contato com a confecção das provas. Eles serão ouvidos nos próximos dias. Mas a chave da solução mais rápida do caso está no depoimento dos dois personagens que tentaram vender a prova vazada ao jornal O Estado de S.Paulo. Haddad fez um apelo para que o jornal e a população ajude as autoridades a localizar os suspeitos.

Na gráfica Plural, pelo menos 20 funcionários tiveram algum tipo de contato direto com o material e também devem ser intimados a depor. O problema maior, porém, está na ponta de distribuição, porque são milhares de motoristas e operários que participam do processo, o que inclui embalagem do material, carregamento nos caminhões de entrega e a distribuição propriamente dita. A estimativa é de que cerca de 400 mil pessoas estejam envolvidas em todo o processo.

Lote dos presídios

O presidente do Inep, Reynaldo Fernandes, acredita que, no momento do vazamento da prova, mais de 90% dos kits de provas já haviam sido entregues nos locais ou estavam a caminho do destino final. O último lote que faltava ser despachado era destinado às penitenciárias, para os detentos inscritos no exame. Para Fernandes, o vazamento é ruim para a imagem do exame, mas não resta alternativa a não ser corrigir as falhas. “Não existe um processo totalmente seguro, infalível”, afirmou. “O que a gente faz é olhar, ficar atento o tempo inteiro para reduzir os pontos vulneráveis.”

Segundo o dirigente do Inep, o pior caminho seria aguardar o fim da investigação para aplicar a nova prova. “O Inep e o MEC têm que tomar as decisões já e marcar a nova prova o mais rápido possível, pois são 4 milhões de alunos esperando em várias universidades por esse exame”, afirmou Reynaldo Fernandes. Na avaliação dele, são remotas as possibilidades de alguém do MEC estar envolvido no vazamento. “Ninguém aqui viu a prova, até porque no Inep não existe a versão impressa, e o exemplar que vazou certamente passou por uma gráfica.” (AE)

 

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